21/07/2026

Sem IPO, empresas intensificam venda de participação

Por: Fernanda Guimarães
Fonte: Valor Econômico
Empresas brasileiras estão vendendo participações ou buscando outras soluções
alternativas para driblar o hiato no mercado de capitais, que segue morno em um
cenário de juros altos e volatilidade, tornando mais estreitas as janelas para
captação de recursos. O mercado privado tem conseguido absorver parte dessa
necessidade de capital, em um momento em que ainda há pouca visibilidade
sobre a retomada do mercado acionário.
Outras empresas de capital fechado, por sua vez, estão analisando a possibilidade
de realizar um “IPO (oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês) reverso”
para se tornarem listadas em meio a um mercado ainda adverso para novas
listagens.
Além da entrada de investidor privado comprando fatia minoritária nas empresas
com necessidade de capital, acionistas têm feito o papel de injetar recursos nas
empresas. Foi isso o que ocorreu na Iguá, do setor de saneamento, que fez um
aumento de capital, em maio, de R$ 700 milhões, conforme informou o Pipeline.
Estudo da Seneca Evercore mostra que, no ano passado, foram realizados 78
investimentos minoritários em empresas brasileiras, considerando as operações
acima de US$ 10 milhões. Esse volume foi 26% acima da média da última década,
e o melhor desde 2021. Neste ano, entre as operações realizadas, está a aquisição
de 40% da FS pela Amaggi e a captação de US$ 100 milhões da Enter, conforme
publicou o Valor.
Em volume financeiro, essas vendas de fatias minoritárias somaram cerca de US$
19 bilhões, aumento de 18,75% em relação ao ano anterior e praticamente o
dobro do visto em 2023.
“Diferentemente do IPO, que exige ‘roadshow’ público, prospectos extensos e
uma janela de mercado favorável, o ‘private placement’ [aporte privado] permite
uma transação customizada, confidencial e ágil: a empresa negocia
bilateralmente com um ou poucos investidores, e a estrutura é desenhada sob
medida para o perfil do emissor e do investidor”, afirma o sócio da Seneca
Evercore, Daniel Wainstein.
Neste ano, a B3 foi palco da primeira abertura de capital em quase cinco anos,
com a estreia da Compass. A oferta ocorreu na esteira da necessidade da Cosan
de levantar capital para equilibrar seu balanço. No entanto, apesar da quebra do
jejum de IPOs, o ano não é apontado como sendo de retomada, dado o ambiente
de volatilidade e juros altos. Projeções mais favoráveis para aberturas de capital
já foram postergadas para 2027.
O responsável pela área de M&A (fusões e aquisições, pela sigla em inglês) do
Bank of America no Brasil, Diogo Aragão, afirma que, sem o mercado público,
empresas analisam captação no mercado privado. “Em mercado volátil, as
empresas não deixam de captar, captam via M&A”, diz Aragão. Segundo ele, as
gestoras de situações especiais, chamadas no mercado de “special sits”, vêm
ocupando esse espaço, visto que conseguem costurar estruturas que muitas
vezes são mais adequadas às características das companhias, que têm de estar,
neste momento, capitalizadas.
Já Roderick Greenlees, responsável global pelo banco de investimento do Itaú
BBA, afirma que o “private placement” tem sido mais observado em empresas de
tecnologia e de alto crescimento, que precisam seguir investindo. O executivo
observa que, em setores de infraestrutura, uma solução que tem sido utilizada
pelas empresas é a atração de sócios para projetos específicos.
Um caso foi o da Energisa, que fechou um acordo com o Itaú para a venda de
uma fatia minoritária em sua subsidiária Denerge, numa operação estruturada de
R$ 1,4 bilhão que vai ajudar a estrutura de capital do grupo.
Danilo Borges, do Bradesco BBI, afirma que, em alguns casos, empresas acabam
aceitando até mesmo a venda do controle para atrair investidores e, com isso,
seguir crescendo. “Tem investidor que demanda o controle”, afirma o executivo.
Borges destaca que as empresas com imóveis também estão se capitalizando
com a venda desses ativos a fundos imobiliários, com estruturas chamadas de
“sale and lease back”, que se trata de vender e alugar na sequência para seguir
com o uso no dia a dia.
Borges, do BBI, lembra que outro movimento que tem sido notado em mais um
ano adverso no mercado de capitais é a busca pelo chamado “IPO reverso”, uma
operação de M&A entre uma empresa fechada com uma de capital aberto - com
a empresa final se tornando aberta. Nessa situação, diz o executivo, a empresa
fica já preparada para uma oportunidade de captação mais à frente, com a
melhora do mercado. Este foi o caso de Bradesco Saúde e Odontoprev para
criação da Bradsaúde, o maior IPO reverso já registrado até aqui, conforme
publicou o Valor.